Maurizio Campagna, irmão do policial Andrea Campagna (Foto: Laura Naime/G1)
O G1 encontrou Maurizio Campagna em Milão, na Via Modica, um uma manhã fria, neste sábado (7). O local é o mesmo onde, há quase 30 anos, foi morto a tiros o irmão de Maurizio, o policial Andrea Campagna – segundo a Justiça italiana, por Cesare Battisti.
Desiludido com a decisão da Justiça brasileira de conceder asilo político ao acusado, Campagna qualifica Battisti como “delinquente comum”. Diz também acreditar que o ministro da Justiça brasileiro, Tarso Genro, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não leram a sentença que o condenou à prisão perpétua na Itália.
Na Itália, Battisti foi condenado a
prisão perpétua por envolvimento com
quatro homicídios ocorridos anos de 1978
e 1979, entre eles, o de Andrea
Campagna. Ex-membro da organização de
extrema esquerda “Proletários Armados
pelo Comunismo”, ele sempre negou as
acusações e se disse vítima de
perseguição política em seu país.
“Eu nasci em 16 de abril. Em 19 de abril
de 1979, eu tinha acabado de fazer 18
anos. Naquele dia, meu irmão saiu da
casa da namorada com o sogro, atravessou
a rua e foi para o carro. Cesare
Battisti e Giuseppe Memeo tinham
estacionado na outra ponta da rua.
Battisti viu meu irmão e decidiu matá-lo.
Enquanto meu irmão abria a porta do
carro, ele atirou quatro vezes”, acusa
Maurizio.
Campagna refuta firmemente a idéia de
que a morte de Andrea tenha sido um
crime político, como defende Battisti.
Para ele, trata-se de um crime comum. “A
decisão de matar meu irmão foi só do
Cesare Battisti. Até porque o PAC (Proletários
Armados para o Comunismo, grupo de
esquerda do qual Battisti fazia parte)
ficava aqui perto. Eles disseram para
ele: ‘Se você matar o Andrea Campagna, a
polícia vai saber’”, diz.
Maurizio acredita que a decisão pela morte do policial foi tomada por causa de uma imagem na televisão.
Andrea foi um dos policiais que detiveram os acusados pelo crime contra Pierluigi Torregiani (o joalheiro morto em frente ao filho, crime do qual a Justiça italiana acusa Battisti de ser o mandante).
“Meu irmão apareceu na TV prendendo
esse assaltante. Então foi decidido que
meu irmão seria morto. Então não é
porque meu irmão estava envolvido no
conflito político. Essa pessoa
(Battisti) não é um terrorista, é um
criminoso comum. Antes de ele entrar
para o PAC, já tinha sido preso por
outros crimes”, acusa ele.
“Na Itália havia muitos grupos
terroristas. Mas eu acredito que o PAC
não é um grupo de terroristas. É um
grupo de delinquentes. Porque o PAC
matou dois comerciantes, um policial um
agente penitenciário. Torregiani foi
assaltado, ele foi morto por um
assaltante. Ele reagiu a um assalto e
foi morto. Isso não é terrorismo”,
desabafa.
Battisti foi preso dois meses após a
morte de Andrea, pelo suposto
envolvimento no crime da joalheria.
Segundo Maurizio, a Justiça tinha a
intenção de fazer uma acareação entre
Battisti e o sogro de Andrea, o que não
aconteceu.
“O pai da namorada do meu irmão o viu atirando e correu atrás. Battisti tentou atirar nele, mas a arma travou. Senão teria mais um morto”, acusa ele. “Cesare Battisti não quis fazer a acareação porque sabia que seria reconhecido”.
Defesa nega acusações
Procurada pelo G1, a assessoria de imprensa dos advogados de Battisti diz que ele nega a autoria dos crimes e que não há testemunhas oculares nem provas materiais contra o italiano.
Em
carta enviada ao STF, onde tramitam
pedidos da Itália para revogar a decisão
do governo brasileiro e pedidos de sua
defesa para libertá-lo, Battisti afirma
que, em junho de 1978, antes dos crimes
atribuídos a ele, deixou o PAC devido a
um assassinato cometido por membros do
grupo. Ele disse que participou de uma
reunião do PAC em 1979 justamente para
tentar impedir que o grupo realizasse os
assassinatos de que agora é acusado.
Segundo a assessoria, há ilegalidades no
processo que o condenou pelas mortes,
como a procuração na qual Battisti
aceita a nomeação de advogados do Estado
italiano para defendê-lo das acusações
de homicídio.
Na época em que o processo tramitou,
Battisti estava no México,depois, foi
para a França, e não teria ficado
sabendo do processo para poder se
manifestar, segundo a assessoria. A
procuração, afirma a defesa do italiano,
foi falsificada.
Além disso, a assessoria afirma que a
condenação de Battisti se deu com base
no testemunho de Pietro Mutti, um
ex-dirigente do PAC que teria acusado o
italiano e, com a delação premiada,
teria sido beneficiado com uma pena mais
leve mesmo após ter confessado sua
participação nos crimes.
A tese de que não houve oportunidade para ampla defesa de Battisti no processo fundamentou a decisão do ministro Tarso Genro, favorável ao italiano.
Genro afirma que o processo de
Battisti foi julgado “segundo
circunstâncias especiais de conflito”.
“Hoje, qualquer juiz que pegasse esse
processo e o analisasse detalhadamente,
absolveria o Battisti por falta de
provas.” (No vídeo ao lado, veja
entrevista do ministro a Alexandre
Garcia, na Globo News)
Maurizio Campagna se incomoda com a
tese: “Dizer que não houve oportunidade
de defesa no julgamento que condenou
Battisti é incorreto. Battisti é um
mentiroso que fugiu da Itália. O
processo é regular".
Extradição
Na defesa da extradição de Battisti,
Maurizio lembra o caso dos boxeadores
cubanos Guillermo Rigondeax e Erislandy
Lara, que fugiram da delegação durante
os Jogos Panamericanos do Rio de
Janeiro, mas que acabaram retornando ao
seu país de origem.
“Quando o governo brasileiro deu asilo
político ao Battisti eu não entendi. Por
que Lula e Genro deram asilo a um
assassino, mas não deram asilo aos dois
atletas de Cuba? Você tem um assassino
livre e os dois atletas são mandados de
volta. Parece a história de Jesus Cristo
e Barrabás”, compara.
Memorial a Andrea Campagna (Foto: Laura Naime/G1)
Para o irmão de Andrea Campagna, a decisão brasileira de conceder asilo foi uma questão de falta de leitura.
“Eu acredito que o Genro e o Lula não
leram a sentença do processo do
Battisti. Se eles tivessem lido,
acredito que ele seria extraditado para
a Itália. Porque o processo é claro,
Battisti não é a vítima, ele não é o Che
Guevara italiano. O seu presidente não
deu asilo político a um perseguido, mas
a um criminoso comum”, acusa ele.
Para demonstrar sua tese, Maurizio diz
que, no Congresso italiano, mesmo a
extrema esquerda concorda com a
extradição. “Geralmente você tem governo
e oposição. Mas nesse caso todos
concordam, porque se você ler o
processo, é impossível dar a Cesare
Battisti algum benefício da dúvida”.
Maurizio Campagna também acusa a França
de colaborar com Battisti. “Ele ficou lá
uns 12 anos, até que saiu a extradição.
Ele recorreu, mas o Comitê Europeu de
Justiça leu o processo e concordou com a
decisão”. Depois da decisão, Battisti
deixou o país. “Ele teve ajuda para sair
da França, é impossível ter saído sem.
Não sei se foi a polícia secreta da
França, mas ele teve ajuda”, diz ele.
“Não sei porque os franceses acreditam
que ele é uma boa pessoa, ele é um
deliquente”, acusa. “
Sem vingança
Em um tom de voz que parece quase
conformado com a situação do caso,
Campagna diz que não busca vingança.
“Quase 30 anos depois das mortes, as
famílias Campagna, Torregiani, Santoro e
Sabattini, não queremos vingança. Nós
queremos justiça, queremos que ele pague
pelos anos que a Justiça decidir. Mas se
a Justiça decidir que ele deve ficar
dois anos preso, ok. Mas ele tem que
pagar por esses crimes”, defende. “Eu
sou amigo das famílias das outras
vítimas. Nós acreditamos que a única
solução para esse caso é entregar o
Battisti para a Itália”.
A jornalista viajou à Itália a convite do Instituto Italiano para o Comércio Exterior.






